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A história não se apaga

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A presente convulsão social decorrente da infame morte de George  Floyd , alastrou-se também para o passado. Os novos revisores da história têm realizado julgamentos sumários a um rol de figuras históricas ,  mais ou menos consensuais, através do vandalismo de estátuas em sua homenagem. Vários  réus  já foram presentes ao tribunal da rua  por todo o Ocidente :  o polémico  Edward  Colston , que ficou para a história como uma “moeda de duas faces”, por um lado traficante de escravos, por outro dedicado filantropo;  o audacioso  General Robert E. Lee,  que comandou as forças da Confederação durante a Guerra Civil Americana e que apresentou  ao longo da sua vida  posições ambivalentes face à escravatura, muitas vezes polémicas para muitos dos seus pares,  totalmente  inflexíveis com a hipótese de um  afro-americano  poder  vir a  ser livre; Cristóvão Colombo,  um homem do seu tempo...

O Humanidade e o Vírus

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Ao contrário de outras espécies, os humanos são seres altamente gregários que, desde a sua génese, conseguiram sobreviver e dominar outras espécies mais robustas através da especial capacidade de criar vastas redes de cooperação e partilha de informação e bens. Assim nasceram grandes comunidades e assim foram plantadas as primeiras sementes da globalização.     Contudo, a exponencial interação entre humanos de vários cantos do mundo contribuiu também para o sucesso de uma estranha forma de vida a que chamamos de vírus. Estes agentes infecciosos altamente replicáveis, que representam a maior diversidade biológica do planeta, têm colocado em causa o ser humano enquanto ocupante do lugar cimeiro da cadeia alimentar.    Na verdade, as grandes crises epidémicas têm sido um dos grandes fatores transformadores das diferentes sociedades humanas nas suas várias dimensões. Depois de epidemias incontroláveis, nasceram novas sociedades ou, pelo menos, difer...

Portugal, os Judeus e Israel

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A recente e polémica visita de Benjamin Netanyahu a Lisboa tem sido um pretexto para discutir as relações entre Portugal e o Estado de Israel. Todavia, a interação entre os dois Estados tem alicerces mais antigos que o moderno Estado de Israel e o quase milenar Portugal. Estima-se que a presença de judeus no atual território nacional seja anterior à formação do Império Romano. As trocas comerciais que na altura prosperavam no Mediterrâneo resultavam na deslocação de população, nomeadamente mercadores judeus e de outras etnias, entre o oriente do Crescente Fértil e o ocidente da Península Ibérica.  Com as Guerras Romano-Judaicas durante os séculos I e II, que culminaram com a expulsão de Jerusalém decretada pelo Imperador Adriano, a diáspora judaica intensificou-se para todo o mundo, inclusive para a Península Ibérica, ou Sefarad em hebraico, que se tornou a casa dos judeus sefarditas (o segundo maior grupo étnico judeu, depois dos judeus asquenazes). Até se formar Port...

Médio Oriente – bandeiras negras à vista

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Na semana passada o mundo assistiu a um relato cénico do Presidente Donald Trump sobre o ataque norte-americano que vitimou o líder do  Daesh  Abu  Bakr  al- Baghdadi . O facto apresentado com a pompa e circunstância de uma superpotência que pretende representar a lei e a justiça numa determinada geografia acontece, de forma não inocente, no atual contexto em que os EUA retiraram tropas do Médio Oriente. Com a morte de al- Baghdadi , Trump quis passar a mensagem que o mundo estaria agora mais seguro, mas na verdade verifica-se uma instabilidade renovada no Médio Oriente e, por consequência, no resto do mundo.  O conflito entre o Irão e os EUA e seus aliados tem aquecido até temperaturas escaldantes. No último episódio, os EUA acusaram o Irão de estar por de trás do ataque com drones a instalações da Saudi  Aramco , na Arábia Saudita, e ameaçaram com o uso da força. Por sua vez, uma retaliação do Irão poderá ocorrer em várias frentes, nome...

Estado da Direita

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Estamos a menos de um mês das eleições legislativas de outubro, mas há muito que nuvens negras pairam sobre o espectro da direita em Portugal. Na verdade o sol nunca brilhou forte para direita portuguesa, por culpa própria e por culpa alheia. Por um lado não se afirmou e por outro a elite política e cultural dominante obliterou-a.   A direita chega a ter vergonha de si mesma, apelidando-se frequentemente de centro-direita para não ferir as suscetibilidades daqueles que a limitam e aprisionam aos fantasmas do fascismo e do capitalismo selvagem.   Importa entender que existem vários tipos de direita com características diferentes consoante o período histórico e a geografia em questão (e.g. para um europeu continental, um britânico, ou um norte-americano, o conservadorismo e liberalismo têm significados diferentes). A direita, tal como a esquerda, compreende uma grande pluralidade de famílias, que abrange liberais, conservadores, democratas cristãos, fascistas, na...