Venezuela: menos Revolução, mais Democracia
A América Latina do século XXI
parece ter perdido algum do encanto que tinha por figuras revolucionárias romantizadas como Che Guevara. A fome, a falta de cuidados médicos e a abolição das
liberdades políticas e económicas dos venezuelanos fá-los depositar esperanças
em figuras mais moderadas, mas não menos aventureiras, como Juan Guaidó – o
jovem político social-democrata progressista que ousou enfrentar o perigoso
regime de Nicolás Maduro. A corajosa declaração de Guaidó abanou fortemente o regime de Maduro.
A dialética de Maduro, que repete
vezes sem conta a sua alegada legitimidade popular, está a ser destruída pelo próprio povo. Uma importante fatia dos contestatários, cerca de 3 milhões de recém imigrantes venezuelanos, exerce influência nos países vizinhos sul-americanos, EUA, Espanha e Portugal. Os países da
diáspora venezuelana vão-se pronunciando, com mais ou menos cautela, ao ritmo da
escrita do presente artigo. Destacam-se as reações mais audíveis de apoio por
parte dos EUA, Brasil, Canadá, Colômbia e Argentina. A Europa, através
de Donald Tusk e Antonio Tajani já mostrou timidamente a sua posição de apoio a Guaidó ; mais não se esperava porque os diferentes países europeus têm posições naturalmente
diferentes e pouco peso geopolítico naquela região do globo.
Do outro lado do xadrez
internacional, Maduro conta já com o apoio de peso da Rússia, Turquia e dos
seus maiores credores e compradores de petróleo, a China.
Para além dos players
internacionais, o desenrolar da crise venezuelana dependerá também da própria
atuação das forças de segurança do regime. Por um lado os altos quadros
militares têm estado ao lado de Nicolás Maduro, que os colocou estrategicamente
em posições de controlo na administração pública e tecido industrial. Por outro
lado, alguns membros da Guarda Nacional Venezuelana mostraram as suas
verdadeiras convicções ao não intervirem em manifestações populares. Contudo a
situação ainda não é clara e o perigo de violência e de guerra civil não é de rejeitar.
Uma escalada do conflito poderá
ser evitada se Juan Guaidó mantiver o seu estatuto de elemento agregador da oposição ao regime, temperando os mais radicais e galvanizando os mais moderados; se for apoiado por parte do Ocidente democrático; e, por último, se conseguir
negociar e garantir que Maduro não sofrerá consequências extremas com a sua
deposição. Caso não haja compromisso, a democracia venezuelana poderá ter um
preço alto a pagar.
(artigo também publicado na Revista Pontos de Vista: https://pontosdevista.pt/2019/01/25/venezuela-menos-revolucao-democracia/)

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