Trump e a estratégia do racismo
A questão racial nos Estados
Unidos tem estado omnipresente no debate político norte-americano, desde a
fundação do país até à atualidade.
Na génese dos EUA, a casta
dominante dos WASPs (acrónimo que em inglês significa "Branco, Anglo-Saxão e
Protestante"), descendente dos primeiros colonizadores europeus do
território, tratou de assegurar os privilégios políticos, económicos e sociais
face aos demais grupos étnicos. Numa primeira fase os imigrantes europeus
não protestantes (e.g. irlandeses, italianos, polacos), foram-se emancipando e,
posteriormente, outros tantos grupos étnicos conquistaram o seu espaço nos EUA.
Atualmente encontram-se afro-americanos, latinos, judeus, ou asiáticos em todo
o tipo de profissões e cargos públicos.
Contudo, importa não esquecer
que os EUA são de facto um país jovem. Ainda estão presentes os ressentimentos
decorrentes dos grandes conflitos que marcaram a década de 60 do século XX, com
o movimento dos direitos civis, ou mesmo a própria Guerra Civil Americana, que
ocorreu cem anos antes, onde a questão racial foi um dos temas centrais.
Recentemente o Presidente Donald Trump
reanimou o tema de forma calculista, com o polémico tweet dirigido às
congressistas Alexandria Ocasio-Cortez, Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley. Mas não foi o primeiro presidente norte-americano a fazê-lo. A
história política dos EUA é fértil em exemplos semelhantes não só do lado
republicano, mas também do lado democrata com conhecidos líderes como George
Wallace, Governador do Alabama, que até ao final dos anos 70 do século anterior
defendeu o segregacionismo de forma populista para agradar ao eleitorado do seu
estado.
Apesar das alterações políticas
e legislativas que decorreram, a questão racial está longe de estar arrumada no
sótão da curta história dos EUA e Donald Trump aproveitou-se disso. Ao contrário do que alguns dos seus críticos
pensam, Trump não é um político amador e desajeitado que comunica
irrefletidamente. O presidente norte-americano é exímio na forma como decide
qual deve ser a agenda política e mediática. Ele coloca os americanos e o mundo
a discutir aquilo que ele entende que deve ser discutido no momento.
Trump já está em campanha eleitoral. As suas declarações são pensadas
com um único objetivo – ganhar as eleições presidenciais do próximo ano. O
“convite” de Trump para as congressistas democratas saírem dos EUA teve várias
intenções: posicionar o Partido Democrata o mais à esquerda possível, obrigando-o
a fazer a defesa das quatro congressistas conectadas com a ala de esquerda mais
radical do partido; seduzir o eleitorado supremacista branco
tradicional e a geração mais moderna da alt-right; e
retirar da agenda temas que prejudicam a sua eleição (nomeadamente a prisão do
seu amigo de longa data Jeffrey Epstein e a investigação sobre o seu alegado envolvimento na intervenção
russa durante as eleições de 2016).
Após o polémico tweet, uma sondagem
realizada pelo USA Today/Ipsos relevou dois dados importantes: a popularidade de Trump junto
do eleitorado republicano aumentou 5% e desceu 2% junto dos democratas; e 70%
do eleitorado republicano considera existir má fé por parte de quem acusa alguém
de ser racista. Estes resultados permitem concluir que Trump
conseguiu polarizar o debate e cerrar fileiras junto do Partido Republicano
para o combate que se advinha cada vez mais aceso. Esta é a guerra que Trump quer
levar para as próximas eleições presidenciais – “nós” contra “eles”, em que o
“nós” é uma personificação do verdadeiro cidadão americano, liderado por Trump.
O alegado racismo de Trump,
alimentado por declarações sugestivas, é uma estratégia que serve o propósito
de mascarar o seu populismo clássico.
Trump parte na dianteira da corrida eleitoral. O presidente
norte-americano lidera as sondagens para as presidenciais, num momento em que o
Partido Democrata ainda não escolheu o seu candidato. Subestimar a sua
estratégia e comprar a sua guerra resultará numa reeleição fácil em 2020.
David
Pimenta
(artigo também publicado em: https://www.publico.pt/2019/07/22/opiniao/opiniao/trump-estrategia-racismo-1880750)

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