Procura-se novo (ou velho) partido reformista
Vários partidos e políticos da história portuguesa têm reclamado o rótulo de reformistas e, demasiadas vezes, o dito reformismo ganhou um caráter etéreo e poucas vezes foi aplicado.
Contudo, desde o 25 de Abril de 1974, alguns exemplos reformistas
saltam à memória, especialmente no espectro do centro-direita. Um deles diz
respeito aos governos de Aníbal Cavaco Silva que, num contexto positivo de
progressiva integração de Portugal na CEE, contribuíram decisivamente para
distanciar o país das heranças do Estado Novo e do PREC, através do
desenvolvimento de infraestruturas e da transição para uma economia social de
mercado alimentada pela entrada de capital privado em diversos setores. Outro
exemplo, num contexto negativo de crise financeira, foi o governo de Pedro
Passos Coelho com a implementação num curto espaço de tempo de um programa de
reformas de grande amplitude: desde uma maior flexibilização laboral,
privatizações de empresas públicas, até propostas de reforma da segurança
social e da orgânica administrativa do Estado. Ambos os casos refletem uma característica
típica do verdadeiro reformismo: o foco no longo prazo, mesmo que haja
incompreensão e dificuldades no curto prazo.
No espectro do centro-esquerda, curiosamente destacaram-se os
governos de José Sócrates, com o famigerado Simplex na administração pública, a
aposta em energias renováveis e projetos de obras públicas que não arrancaram (e
que ainda não viram a luz do dia). Importa dizer que, para além da forma
trágica como acabou o último governo de Sócrates, o seu reformismo apresentou
vários pecados mortais, nomeadamente no ponto em que não teve como prioridade a
redução do peso do Estado.
Voltemos ao dia de hoje. Passados os longos anos de governação
maioritária de António Costa e os dois anos de governação minoritária de Luís
Montenegro, eis que o apelo do reformismo volta a bater à porta de forma cada
vez mais audível. Parte da sociedade portuguesa pede reformas que façam o país modernizar-se
e crescer no mesmo ritmo do longínquo cavaquismo, e não receia que seja
colocado o dedo na ferida como nos tempos do passismo.
Apesar do presente governo dispor de uma pasta ministerial dedicada
à reforma do Estado e de Montenegro ter como uma das suas referências Cavaco
Silva, a gestão política taticista do seu contexto – um governo minoritário pressionado
por dois partidos que não têm demonstrado intenções reformadoras – não oferece as
melhores perspetivas. Neste quadro, o reaparecimento de Passos Coelho e Cotrim
de Figueiredo não surpreende. Os vazios na oferta política tendem a ser
rapidamente preenchidos. Caso o governo de Montenegro não consiga representar
politicamente uma franja eleitoral mais reformista, de índole liberal (designadamente
em termos económicos), ela procurará outras referências.
Atualmente, Passos Coelho e Cotrim de Figueiredo parecem possuir
capital político próprio superior ao dos seus partidos; isto é especialmente constatável
no caso de Cotrim de Figueiredo, considerando a sua capacidade de mobilização
na recente eleição presidencial. Já Passos Coelho, sem dados que o sustentem,
parece ter a auctoritas ou a aura do “patrão da direita”, capaz de absorver
todo o espaço eleitoral que contempla PSD, Chega, Iniciativa Liberal e CDS-PP.
Será que o PSD (ou a AD) e a Iniciativa Liberal têm a ambição e competência
para oferecer aquilo que o eleitorado mais reformista e liberal procura? A
resposta a essa questão será dada nos próximos tempos, mas para já sabemos que
duas figuras cimeiras do espaço de centro-direita dão indicações de que o podem
fazer, seja ao leme dos partidos existentes ou de um novo projeto político.
David Pimenta (Artigo também publicado em: https://observador.pt/opiniao/procura-se-novo-ou-velho-partido-reformista/)

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