Imigração sem estratégia, emigração sem retorno
Em Portugal continua a discutir-se o tema das migrações como se vivêssemos no século XX. Para além do lado quantitativo sobre as entradas e saídas, importa abordar o lado qualitativo, i.e., a qualidade do talento que existe nesses movimentos.
O tema das
migrações é complexo e multivariado, considerando que abrange dimensões
etnoculturais, intimamente ligadas a fatores identitários e psicológicos de
indivíduos e coletivos, com respetivo impacto na coesão política e social dos
estados. Não havendo aqui espaço de escrita para um tratado sobre migrações, o
presente artigo olha sobretudo para a perspetiva do indivíduo enquanto agente
económico que pretende obter rendimento a partir do seu talento.
Durante
décadas, habituámo-nos a olhar para a emigração como uma fatalidade histórica.
Dos fluxos para França nos anos 60 do século XX à vaga pós-crise de 2011, sair
sempre fez parte da experiência portuguesa. Mas há uma diferença fundamental
hoje: estamos a perder precisamente aqueles de quem mais precisamos – jovens
qualificados e produtivos.
Os números são
conhecidos, mas continuam a ser tratados como estatística e não como alerta
estrutural. Vários estudos referem que uma proporção muito significativa dos
jovens qualificados (frequentemente estimada entre 20% e 30%) encontra-se no
estrangeiro. Portugal não está a exportar uma qualquer mão de obra, está a
exportar capital humano, inovação e futuro.
A questão não é
se a emigração é “boa” ou “má”. A literatura económica demonstrou que pode ter
efeitos positivos (desde remessas até redes de diáspora e incentivos à educação).
O verdadeiro problema é outro: Portugal não criou as condições para transformar
mobilidade em vantagem. E, em vez de um sistema de “brain circulation”, temos
um sistema de perda líquida.
Outro equívoco
a ser ultrapassado passa por perceber que o problema não está nas pessoas, está
na economia, sendo que o talento não se comporta de forma patriótica, mas sim
racional. Os trabalhadores qualificados escolhem onde viver com base em fatores
como os salários, as oportunidades ou a qualidade institucional. Tipicamente,
Portugal continua a apresentar fragilidades nestas três dimensões. Quando
comparado com os seus parceiros europeus, o país apresenta uma economia com
baixa produtividade, salários pouco competitivos e uma estrutura empresarial com
capacidade limitada de absorção de massa qualificada. A isto somam-se uma carga
fiscal elevada sobre o trabalho e um ambiente regulatório instável. O resultado
é previsível: quem quer e pode, sai.
Apesar de
iniciativas pontuais de atração de talento qualificado, a política migratória
tem sido predominantemente reativa, orientada para necessidades imediatas de
setores de baixo valor acrescentado (e.g., construção, turismo, agricultura), em
vez de uma estratégia clara de atração de talento qualificado.
Se Portugal
quer inverter esta trajetória, precisa de mudar radicalmente de abordagem. Não
basta “reter talento”, é preciso competir por ele em três grandes vetores.
Primeiro, uma melhor
seleção na entrada. Os países que lideram na atração de talento, como o Canadá,
a Austrália e Singapura, não deixam isso ao acaso; usam sistemas de pontos,
critérios claros e objetivos estratégicos. Em sentido contrário, Portugal
continua preso a um modelo burocrático, lento e desorganizado. A AIMA tornou-se
símbolo disso mesmo: um sistema incapaz de gerir fluxos, quanto mais de os
orientar. Sem desvalorizar o contributo de trabalhadores em setores essenciais,
a ausência de um mecanismo de seleção qualificada fará com que continuemos a
atrair sobretudo quem tem menos alternativas e não quem acrescenta mais valor.
Segundo, a criação
de uma economia vibrante. Nenhuma política migratória compensa uma economia
fraca. O verdadeiro motor do “brain gain” não são vistos – são salários,
carreiras e ecossistemas de inovação.
Portugal
precisa de apostar em setores de alto valor – como a tecnologia, saúde e
serviços financeiros – e criar condições para que empresas cresçam, inovem e,
consequentemente, paguem melhor. Existem alguns exemplos de sucesso no nosso
país, mas há falta de escala e um contexto de baixa flexibilidade e de
bloqueios institucionais que refletem uma visão ultrapassada do mercado de
trabalho.
Terceiro, tornar
Portugal competitivo e não apenas agradável. Portugal projeta-se bem como
destino turístico, mas o talento não procura apenas sol e segurança, procura
oportunidades. Países como a Irlanda ou os Países Baixos compreenderam isto há
décadas. Criaram regimes fiscais competitivos, estabilidade regulatória e uma
narrativa internacional centrada em negócios e inovação.
Importa
mencionar que Portugal já ensaiou políticas de atração fiscal, com resultados
mistos e contestados. Não obstante, ficou por avaliar com rigor o que
funcionou, corrigir o que falhou e construir uma alternativa coerente. Em vez
disso, optou-se pela supressão.
Em suma, Portugal
tem vantagens reais: qualidade de vida, segurança, clima. Mas falha no
essencial, i.e., transformar essas vantagens em produtividade.
Portugal não
está condenado ao “brain drain”, mas reverter esta tendência exige uma escolha
política clara: queremos ser uma economia de baixo valor, assente em mão de
obra barata, ou uma economia competitiva no mercado global de talento? Enquanto
essa escolha não for feita, continuaremos a discutir imigração pelos motivos
errados e a perder, silenciosamente, aquilo que mais importa – o nosso futuro.

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