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Guerras tarifárias, prosperidade e paz

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  A guerra de tarifas aduaneiras que os EUA de Donald Trump têm despoletado contra uma série de parceiros comerciais tem por base o argumento do reequilíbrio da balança comercial norte-americana que tem estado deficitária face a alguns desses parceiros. Outro argumento poderosíssimo apresentado pela administração Trump é mais emocional e identitário – castigar os “outros” para proteger os “nossos”, mais concretamente, proteger as empresas e os empregos dos americanos. Em contra corrente, a ciência económica olha para o déficit comercial norte-americano de outro prisma. No caso dos EUA, para além dos níveis de consumo elevados, o déficit é sobretudo produto da sua vibrante economia (sustentada por alta produtividade e pouca regulação) que atrai investimento estrangeiro. As entradas massivas de capitais estrangeiros contribuem também para tornar o dólar a reserva de valor global por excelência. Assim se percebe que o valor dos bens importados seja mais barato do que o dos bens expo...

Os radicais da frente leste

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  No passado domingo a proa do navio do dito establishment político europeu sofreu rombos adicionais. As eleições nos estados alemães da Turíngia e Saxónia revelaram mais uma subida do suspeito do costume – a direita radical – e também da esquerda radical. Na Turíngia, a direita da Alternative für Deutschland (AfD) ganhou as eleições, depois do terceiro lugar em 2019; e a esquerda da Bündnis Sahra Wagenknecht (BSW) estreou-se nas eleições como o terceiro partido mais votado, ultrapassando inclusive o Die Linke que tinha vencido em 2019. A vitória da AfD na Turíngia revelou também uma vitória dos mais radicais entre os radicais. Neste estado, o partido é liderado por Björn Höcke – político controverso, inúmeras vezes acusado de fazer resvalar o partido de direita radical para a extrema-direita devido a discursos associados a posições antissemitas e até neonazis. No estado da Saxónia, a AfD manteve o segundo lugar que obteve em 2019, mas com uma percentagem muito próxima da C...

A viragem à direita na Europa

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Aproximam-se as eleições europeias e, no que se refere a política partidária, o destaque pré e pós-eleitoral irá recair com grande probabilidade na performance da direita radical. É expectável que os grupos europeus que habitam o espaço mais à direita do espectro político tenham um resultado coincidente com o ganho de poder que os vários partidos nacionais têm vindo a obter nos respetivos parlamentos dos Estados-Membros. Importa saber que existem diferentes grupos políticos europeus que, por sua vez, agregam diferentes partidos europeus (dos quais fazem os vários partidos nacionais de cada Estado-Membro). Usando o exemplo do partido de direita radical português, o Chega faz parte do ID Party (Partido Identidade e Democracia) e o ID Party é membro do grupo europeu ID (Identidade e Democracia). Existem dois grupos que agregam os principais partidos de direita radical europeus: o, já referido, ID que inclui o Chega, os franceses da Rassemblement National (RN), os italianos da Lega, entre ...

Pedro Sánchez e César Bórgia

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Foi no longínquo ano de 1532 que O Príncipe – a obra cimeira que inaugurou a filosofia política moderna – foi publicado postumamente. Com a sua obra-prima, Nicolau Maquiavel pretendeu apresentar a política como ela realmente é e não como deveria ser; o autor florentino quebrou, de certo modo, com os clássicos e as suas conceções idealistas relativas ao governo do estado e criou um breve e, simultaneamente, sofisticado tratado político sobre a conquista e manutenção do poder.  Maquiavel foi contemporâneo de César Bórgia, um poderoso nobre, homem da igreja, das armas e da política. Maquiavel conheceu e lidou com Bórgia, tendo sido grandemente influenciado por este ambicioso e controverso anti-herói do turbulento contexto político renascentista. César Bórgia tornou-se, inclusive, uma personagem central da obra de Maquiavel, mas O Príncipe manteve-se uma referência muito para além de Bórgia e do seu tempo; muitos outros príncipes, reis e homens de estado do passado leram e estudaram a ...

A economia por detrás dos debates eleitorais

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Analisando os dados do Eurobarómetro de Outono de 2023, verifica-se que os temas que mais preocupam os portugueses são eminentemente económicos: a inflação e aumento do custo de vida, a habitação, a situação global da economia, os impostos e a saúde. E é no próximo dia 10 de março que os portugueses terão novamente oportunidade de escolher projetos políticos que respondam às suas prioridades. Portugal vive uma situação dramática que muitos suspeitavam e que, recentemente, foi conhecida e mediatizada. Importa repeti-la neste artigo e em todas as discussões sobre política e economia portuguesa: 30% da população jovem deixou o país. Uma fatia substancial dos mais qualificados e em idade fértil não acreditam no presente e futuro de Portugal, tratando-se dum sinal típico de estados falhados, como muitos exemplos presentes e passados (veja-se a Grande Fome irlandesa no século XIX, em que 20% dos irlandeses emigraram). A perda de população jovem em Portugal não é uma novidade histórica, m...

O ano de 2023 e o futuro próximo

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O ano de 2023 foi especialmente marcante para a democracia portuguesa, tendo terminado com a invulgar queda de um governo de maioria absoluta, na sequência da abertura do processo de investigação aos negócios do hidrogénio e lítio. A relevância e mediatismo do acontecimento não faz, contudo, esquecer acontecimentos nacionais e internacionais que continuam a impactar Portugal em termos sociais, culturais, políticos e económicos, independentemente de quem esteja ao leme da nau governativa portuguesa. Um dos temas cimeiros foi (e é) a crise da habitação – um tema que alimentou acesos debates parlamentares e na sociedade civil, manifestações de rua e produção de legislação que se revelou infrutífera. O incipiente investimento público aliado às alterações legislativas que o setor privado encarou como desincentivadoras, não resolveram o problema do lado da oferta. Do lado da procura, importa considerar que Portugal está inserido no Espaço Schengen, onde circulam livremente capitais e cidad...

Judeus sefarditas: identidade e regresso

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  Passados dois anos sobre a controversa atribuição da cidadania portuguesa a Roman Abramovich, e considerando os milhares de pedidos de naturalização recebidos nos últimos anos, o governo português decidiu que o mês de dezembro será a derradeira oportunidade para os descendentes de judeus sefarditas expulsos no passado obterem a cidadania portuguesa. O governo alega que os oito anos em que a lei vigorou foram suficientes para cumprir a reparação histórica. Mas porquê oito anos e não nove, ou outra qualquer duração? E porquê acabar terminantemente com a lei? Esta polémica remete para questões profundas sobre a identidade judaica, nomeadamente a sua ligação com Portugal. Viajemos um pouco pelo passado para compreender o presente. A identidade do povo judeu construiu-se nas fugas, mas também nos regressos. Ao sobejamente conhecido primeiro grande movimento de fuga do Egito – o Êxodo – corresponde um não tão notório, mas significativo, regresso à cidade egípcia de Elefantina no sécu...